quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O MÉDICO E SUA ÉTICA.


MOMENTOBRASIL.COM(Comentário):
E a Presidanta está fazendo verdadeiro bla-bla-blá na área da saúde.











Em 1956, conheci, na cidade do Serro, em Minas, o médico Antonio Tolentino,
que era o profissional mais idoso ainda em atividade no Brasil. Ele chamava
a atenção por dois motivos: coubera-lhe assistir ao parto de Juscelino, em
1902, e não alterara o valor da consulta, que equivalia, então, a cinco
cruzeiros. Entrevistei-o, então, para a Revista Alterosa, editada em Minas
e já desaparecida.


Em razão da matéria, o deputado federal Vasconcelos Costa obteve, da
Câmara, uma pensão vitalícia da União para o médico, que morreu logo
depois. Ele tinha, na época, 94 anos – e setenta de atividade. Seus
descendentes criaram um museu, em sua casa e consultório. Uma das peças é o
anúncio que fez, logo no início da carreira: “aos pobres, não cobramos a
consulta”.



Confesso o meu constrangimento. Estou em idade em que dependo, e a cada
dia mais, de médicos, e de bons médicos, é claro. Tenho, entre eles, bons e
velhos amigos. O que me consola é que os meus amigos estão mais próximos da
filosofia de vida do médico Antonio Tolentino, do que dos que saíram em
passeata, em nome de seus direitos, digamos, humanos.



Mais do que outros profissionais, os médicos lidam com o único e absoluto
bem dos seres, que é a vida. Os enfermos a eles levam as suas dores e a sua
esperança. É da razão comum que eles estejam onde se encontram os pacientes
– e não que eles tenham que viver onde os médicos prefiram estar.



De todos os que trataram do assunto, a opinião que me pareceu mais justa
foi a de Adib Jatene. Um dos profissionais mais respeitados do Brasil,
Jatene acresce à sua autoridade o fato de ter sido, por duas vezes,
Ministro da Saúde. Ele está preocupado, acima de tudo, com a qualidade do
ensino médico no Brasil. Se houvesse para os médicos exames de avaliação,
como o dos bacharéis em direito, exigido pela OAB para o exercício
profissional, o resultado seria catastrófico.



Jatene recomenda a formação de bons clínicos e, só a partir disso, a
especialização médica. Os médicos de hoje estão dependentes, e a cada dia
mais, dos instrumentos tecnológicos sofisticados de diagnóstico, e cada
vez menos de seu próprio saber. O vínculo humano entre médico e paciente –
salvo onde a medicina é estatizada – é a cada dia menor. Assim, Jatene
defende o sistema do médico de família. Esse sistema permite o
acompanhamento dos mesmos pacientes ao longo do tempo, e a prática de
medidas preventivas, o que traz mais benefícios para todos.



Entre outras distorções da visão humanística do Ocidente, provocadas pela
avassaladora influência do capitalismo norte-americano, está a de certo
exercício da medicina e da terapêutica. A indústria farmacêutica passou a
ditar a ciência médica, a escolher as patologias em que concentrar as
pesquisas e a produção de medicamentos. A orientação do capitalismo,
baseada no maior lucro, é a de que se deve investir em produtos de grande
procura, ou, seja, para o tratamento de doenças que atinjam o maior número
de compradores. Dentro desse espírito, a medicina, em grande parte, passou
a ser especulação estatística e probabilística.



Os médicos protestam contra a contratação de profissionais estrangeiros,
pelo prazo de três anos, para servir em cidades do interior, onde há
carência absoluta de profissionais. Não seriam necessários, se os médicos
brasileiros fossem bem distribuídos no território nacional, mesmo
considerando a má preparação dos formados em escolas privadas de péssima
qualidade, que funcionam em todo o país.



Ora, o governo oferece condições excepcionais para os que queiram trabalhar
no interior. O salário é elevado, de dez mil reais, mais moradia para a
família, e alimentação. É muitíssimo mais elevado do que o salário
oferecido aos engenheiros e outros profissionais no início de carreira.
Ainda assim, não os atraem. E quando o governo acrescenta ao currículo dois
anos de prática no SUS, no interior e na periferia das grandes cidades, vem
a grita geral.



Formar-se em uma universidade é, ainda hoje, um privilégio de poucos. Os
ricos são privilegiados pelo nascimento; os pais podem oferecer-lhe os
melhores colégios e os cursos privados de excelência, mas quase sempre vão
para as melhores universidades públicas, bem preparados que se encontram
para vencer a seleção dos vestibulares. Os pobres, com a ilusão do
crescimento pessoal, sacrificam os pais e pagam caro a fim de obter um
diploma universitário que pouco lhes serve na dura competição do mercado de
trabalho.



Um médico sugeriu que a profissão se tornasse uma “carreira de estado”,
como o Ministério Público e o Poder Judiciário. Não é má a idéia, mas só
exeqüível com a total estatização da medicina. Estariam todos os seus
colegas de acordo? Nesse caso não poderiam recusar-se a servir onde fossem
necessários.



Temos, no Brasil, o serviço civil alternativo que substitui o serviço
militar obrigatório, e é prestado pelos que se negam a portar armas. Embora
a objeção possa ser respeitada em tempos de paz, ela não deve ser aceita na
eventualidade da guerra: a defesa da nação deve prevalecer. Mas seria justo
que não só os pacifistas fossem obrigados, pela lei,depois de formados
pelos esforços da sociedade como um todo, a dar um ou dois anos de seu
trabalho à comunidade nacional, ali e onde sejam necessários. Nós tivemos
uma boa experiência, com o Projeto Rondon, que deveria ser mais extenso e
permanente como instituição no Brasil.



As manifestações recentes mostram que todos, em seus conjuntos de
interesses, querem mais do Estado em seu favor. Não seria o caso de
oferecerem alguma coisa de si mesmos à sociedade nacional? Dois anos dos
jovens médicos trabalhando no SUS – remunerados modestamente e com os
gastos pagos pelo Erário – seriam um bom começo para esse costume. E a
oportunidade de aprenderem, com os desafios de cada hora, a arte e o
humanismo que as más escolas de medicina lhes negaram.*
Fonte: Mauro Santayana

Um comentário:

MARIA JOSE Rezende disse...

Roy, amor meu. Muita confusão nesse tema, cada um com seus argumentos. Beijos.