terça-feira, 12 de janeiro de 2010

OFICIALMENTE VELHO.

Neste mês de dezembro completo 70 anos. Pelas condições brasileiras, me torno oficialmente velho. Isso não significa que estou próximo da morte, porque esta pode ocorrer já no primeiro momento da vida. Mas é uma outra etapa da vida, a derradeira. Esta possui uma dimensão biológica, pois irrefreavelmente o capital vital se esgota, nos debilitamos, perdemos o vigor dos sentidos e nos despedimos lentamente de todas as coisas. De fato, ficamos mais esquecidos, quem sabe, impacientes e sensíveis a gestos de bondade que nos levam facilmente às lágrimas, Mas há um outro lado, mais instigante. A velhice é a última etapa do crescimento humano. Nós nascemos inteiros. Mas nunca estamos prontos. Temos que completar nosso nascimento ao construir a existência, ao abrir caminhos, ao superar dificuldades e ao moldar o nosso destino. Estamos sempre em gênese. Começamos a nascer, vamos nascendo em prestações ao longo da vida até acabar de nascer. Então entramos no silêncio. E morremos. A velhice é a última chance que a vida nos oferece para acabar de crescer, madurar e finalmente terminar de nascer. Neste contexto, é iluminadora a palavra de São Paulo: ”na medida em que definha o homem exterior, nesta mesma medida rejuvenece o homem interior” (2Cor 4,16). A velhice é uma exigência do homem interior. Que é o homem interior? É o nosso eu profundo, o nosso modo singular de ser e de agir, a nossa marca registrada, a nossa identidade mais radical. Esta identidade devemos encará-la face a face. Ela é pessoalíssima e se esconde atrás de muitas máscaras que a vida nos impõe. Pois a vida é um teatro no qual desempenhamos muitos papéis. Eu, por exemplo, fui franciscano, padre, agora leigo, teólogo, filósofo, professor, conferencista, escritor, editor, redator de algumas revistas, inquirido pelas autoridades doutrinais do Vaticano, submetido ao “silêncio obsequioso” e outros papéis mais. Mas há um momento em que tudo isso é relativizado e vira pura palha. Então deixamos o palco, tiramos as máscaras e nos perguntamos: Afinal, quem sou eu? Que sonhos me movem? Que anjos que habitam? Que demônios me atormentam? Qual é o meu lugar no desígnio do Mistério? Na medida em que tentamos, com temor e tremor, responder a estas indagações vem à lume o homem interior. A resposta nunca é conclusiva; perde-se para dentro do Inefável. Este é o desafio para a etapa da velhice. Então nos damos conta de que precisaríamos muitos anos de velhice para encontrar a palavra essencial que nos defina. Surpresos, descobrimos que não vivemos porque simplesmente não morremos, mas vivemos para pensar, meditar, rasgar novos horizontes e criar sentidos de vida. Especialmente para tentar fazer uma síntese final, integrando as sombras, realimentando os sonhos que nos sustentaram por toda uma vida, reconciliando-nos com os fracassos e buscando sabedoria. É ilusão pensar que esta vem com a velhice. Ela vem do espírito com o qual vivenciamos a velhice como a etapa final do crescimento e de nosso verdadeiro Natal. Por fim, importa preparar o grande Encontro. A vida não é estruturada para terminar na morte mas para se transfigurar através da morte. Morremos para viver mais e melhor, para mergulhar na eternidade e encontrar a Última Realidade, feita de amor e de misericórdia. Ai saberemos finalmente quem somos e qual é o nosso verdadeiro nome. Nutro o mesmo sentimento que o sábio do Antigo Testamento: ”contemplo os dias passados e tenho os olhos voltados para a eternidade”. Por fim, alimento dois sonhos, sonhos de um jovem ancião: o primeiro é escrever um livro só para Deus, se possível com o próprio sangue; e o segundo, impossível, mas bem expresso por Herzer, menina de rua e poetisa: ”eu só queria nascer de novo, para me ensinar a viver”. Mas como isso é irrealizável, só me resta aprender na escola de Deus. Parafraseando Camões, completo: mais vivera se não fora, para tão longo ideal, tão curta a vida.(Autor:ANÔNIMO)//.


7 comentários:

angela disse...

Tocante! Um lindo texto.
Penso que as cores do alvorecer são tão bonitas quanto as cores do sol poente. A melancolia que costuma acompanhar o ocaso é derivada da ideia de finitude. Mas isso é relativo pode ser as cores de um novo começo. O poente e o amanhecer possuem as mesmas lindas cores. Talvez sejam a mesma coisa.
abraço

Crista disse...

HOMEM...só tu para me presentear com um texto assim!!!!
Por isso que me encantas tanto!
OBRIGADA e um beijão!

MOMENTOBRASILCOM.COM disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria José disse...

Nascemos. Crescemos. Podemos até evoluir. Vamos andando pela vida, percorrendo os dias, meses e anos. Cada etapa de nossa vida é marcada por acontecimentos próprios, felizes, marcados de dores e mágoas ...
Vamos crescendo, somando anos à nossa história. Vamos envelhecendo, mas isso não significa que vamos amadurecendo.
Amadurecer requer calma, sabedoria, discernimento e acreditar sempre que a vida é um eterno recomeço. E que a felicidade está em todos os instantes, em cada uma das idades. E que é preciso morrer sempre para renascer.
Lindo texto. Parabéns. Grande abraço.

Mistérios, Magias ou Milagres. disse...

Quem garante que a velhice é o fim!
Não existe começo nem fim, apenas um ciclar e reciclar de pensar e sentir.
Acredito que somos todos imortais, pois nosso Espírito vive eternamente e os nascer e renascer de vida em vidas assim completamos cada etapa da existência com tudo que sonhamos. Amei, amei seu inteligente blog, vou voltar mais vezes para ler outras postagens. Abraços e obrigada por ser tão maravilhoso em seus escritos. Abraços Heudes.

Humana disse...

Olá Roy,
adorei o teu texto, bem diferente do tipo de textos que estou habituada a ler aqui.
Sei que venho atrasadíssima mas quero desejar-te muitas felicidades neste novo ano.
A vida é feita por etapas e ninguém escapa ao tempo. Temos é que aproveitar da melhor forma o tempo que aqui andamos. Estás vivo e bem vivo e temos aqui a prova cabal disso, porque és um inconformado e um lutador e estou certa que serás sempre assim.
Um beijo grande e desejos de muita Paz, Saude e Amor.

Rejane disse...

Totalmente demais!! coloquei-o nos meus favoritos para ler e reler- adorei!!
Bom final de semana