segunda-feira, 16 de novembro de 2009

RESPEITANDO INDIVIDUALIDADES.

Muito além de uma minissaia:
Carregado de expectativas, esse pessoal vai fazer cada vez mais barulho. Tanto quanto Geisy com sua roupa. POR TRÁS DA minissaia de Geisy Arruda existe o surgimento de um novo poder no país, com especial intensidade nas regiões metropolitanas. Talvez isso explique parte da repercussão do escândalo: as classes C e D serão, muito em breve, maioria nas universidades. A estudante apareceu no noticiário cotada para posar na revista "Playboy", participar de um anúncio de lingerie e ser a estrela principal de um filme erótico. Os debates envolvem os mais variados temas: violência, machismo e intolerância, indicadores universitários, pedagogia. E, claro, moda: inspirou um curso de história da moda na sofisticada Casa do Saber. Mas o que me chama atenção é o contexto em que surge Geisy: o do crescimento veloz das matrículas dos mais pobres no ensino superior. É mais veloz do que se imagina. Com base em questionários socioeconômicos dos testes públicos, uma consultoria especializada em ensino superior (Hoper) estima que, em 2012, haverá mais alunos das classes C e D do que A e B nas universidades brasileiras. De 2004 a 2008, a classe C produziu mais de 343 mil universitários -um crescimento no período de 84%. Na classe D, a evolução foi de mais de 333 mil, o que significa 52%. Estamos falando aqui de 676 mil brasileiros, com altas expectativas. "Para a maioria deles, a faculdade é uma espécie de porta da esperança. Muitos são os primeiros a entrar no ensino superior em toda a família", afirma Ryon Braga, diretor da Hoper, que realiza frequentes pesquisas qualitativas para entender o que pensa e sente esses brasileiros. São indivíduos que, em geral, vêm das escolas públicas, têm ainda maiores carências educacionais e baixo repertório cultural. Mas têm a força dos sobreviventes. A Uniban pode estar muito longe do topo de qualidade de ensino, mas Geisy, ao ser expulsa, transmitiu a sensação de que tinha perdido uma chance de futuro, embora nem seu curso se destaque nos rankings do MEC nem ela tenha demonstrado ser uma aluna aplicada. Ela se celebrizou pelos dotes físicos, mas quem ouviu com atenção suas entrevistas viu que soube defender com propriedade seus direitos -é a esperteza de quem junta capacidade de articulação com as dificuldades cotidianas. Entre os mais pobres, dissemina-se a percepção correta de que cada ano de escolaridade corresponde a um salário menor e uma chance mais reduzida de desemprego. Somem-se o aumento de renda da classe C, a queda no valor das mensalidades e programas como o ProUni para se entender essa mudança na paisagem humana. O mercado está cada vez mais de olho nesses movimentos. Formado em administração, Caio Romano criou uma empresa de marketing (Mundo Universitário) para fazer a ponte entre as empresas e os campi. Ele percebe que, nos últimos anos, as empresas se mostram muito interessadas -algumas até de mais- em exibir seus produtos em uma escola povoada por estudantes da classe C e D. "É alguém que, em breve, será em maior número e terá mais dinheiro do bolso", afirma Caio. Por isso, mais publicitários tentam entender e focar seus projetos nesse público. "Um universitário, por mais pobre que seja, aumenta seu padrão de consumo ao tomar contato com mais informações." Tenho testemunhado, há vários anos, como eles, em geral, demonstram mais garra do que os mais ricos, dispondo-se a trabalhar de noite e estudar de dia. Saem perdendo não só por causa do baixo repertório educacional e cultural, mas especialmente pela falta de uma rede de contatos. Como já comentei, muitos dos que conseguem entrar nas melhores faculdades públicas e enfrentar suas deficiências apresentam desempenho melhor do que a média.
Carregado de expectativas, esse pessoal vai fazer cada vez mais barulho. Tanto quanto Geisy com sua minissaia.
PS - O papel da sociedade é cobrar cada vez mais qualidade das faculdades. Mas cuidado com o preconceito: o ensino superior, mesmo do jeito que está, é uma evolução na paisagem social. É melhor mais quatro anos de escolaridade numa faculdade ruim do que apenas o diploma de ensino médio. Coloquei em meu site (www.dimenstein.com.br) mais detalhes sobre a evolução das classes C e D nas universidades brasileiras. //
MOMENTOBRASILCOM.COM(Comentário):
Estamos publicando esta matéria, importância do assunto abordado.

2 comentários:

angela disse...

Muito interessante os pontos levantados.
abraços

Patrícia_search disse...

O difícil é que depois de ter passado por esse funil ( Curso Universitário) , as pessoas das classes C e D assumem a sua profissão e caem no descrédito de pessoas preconceituosas que querem empurrá-las de volta para a miséria e o desemprego. Mas não é por falta de competência e sim porque saíram de onde saíram. Quero lembrar aos preconceituosos um lugar comum: o sol nasceu para todos.